Livro resgata memória e técnicas utilizadas pelas benzedeiras  – Diário Online



Um convite para adentrar em uma casa de benzedeira, relembrar dos tempos em que tudo era mais simples, singelo e amoroso, o livro “Eu Te Benzo”, da bióloga, biopatologista e terapeuta holística Jacqueline Naylah, faz o leitor fechar os olhos e ainda sentir um cheirinho de arruda, ouvir o arrastar de chinelos da vovó pelo chão de madeira, avistar um pequeno altar com velas acesas, um cochichar de rezos em nossos ouvidos.

“Nossas saudosas lembranças ainda curam nossos dias, nos acolhem e enchem nossos corações de esperança, tal como um afago de mãe. É o pulsar de nossos ancestrais em nós, um convite para que cada um de nós perpetue um legado de força e esperança deixado por eles”, coloca em sua publicação, resultado de um longo trajeto em que foi tecendo juntos seu conhecimento acadêmico e o holismo.

Vinda de uma família materna de benzedeiras, erveiras e parteiras, ela acreditou que quebraria a tradição ao dedicar-se apenas à área científica. O despertar para essa raiz ancestral veio quando a avó faleceu e deixou para ela uma bonita herança. “Ela deixou o anel dela. Quando olhei, lembrei que minha avó já tinha me benzido com ele e pensei: por que, entre 40 netos, ela deixou pra mim?”, lembra Naylah.

Foi então que começou sua jornada em busca de informações de onde e como atuavam as benzedeiras. “Naquele tempo não tinha livro. Perguntava para as pessoas, elas diziam que conheciam uma, mas que ela já tinha falecido. Eu, com filho pequeno, percebi que se ninguém falasse sobre isso, ia ser uma cultura extinta onde nasci, no Rio Grande do Sul”, explica. Com uma palestra e um curso em que reunia as informações que coletou, Naylah viajou o Brasil e alimentou a própria pesquisa conversando diretamente com benzedeiras em cada parada.

“Trouxe tudo de volta para a minha vida, não para eu ser benzedeira, mas facilitadora para outras pessoas terem esse conhecimento e o que é em si o ritual do benzimento”, diz ela. Em seu livro, Naylah elucida questões como o uso de ferramentas, que se diferem de lugar para lugar. “Elas não tinham o nome como temos hoje para as doenças, apenas viam como se manifestava e usavam a ferramenta adequada”, descreve.

FERRAMENTA

Uma doença que se alastra pelo corpo, como a herpes, elas diziam que era necessário dar limite, então pegavam uma caneta e circulavam, como parte inicial do benzimento. Se notavam que se tratava de uma dor na articulação, diziam que a pessoa estava amarrada, então prendiam a região com um barbante e depois soltavam. Naylah explica que o rito do benzimento tem quatro etapas, e o uso de uma ferramenta é apenas o primeiro.

“Essa ferramenta é sempre algo muito simples, da cozinha, da máquina de costura, bem o cenário em que elas viviam. A segunda etapa é o sinal da cruz, não que esteja voltado à uma religião específica, mas porque elas dizem ser um sinal que se volta para as quatro direções. Além disso, toda benzedeira tem um número, que vem da intuição delas”, diz Naylah, cujo número é três e por isso, ao benzer alguém, sente a necessidade de fazer o sinal três vezes. Ela também pede a quem está cuidando para voltar sempre em mais duas sessões, encerrando o benzimento em três.

“Por fim, tem o rezo, a oração, o cântico, o mantra… É uma coisa única, uma conversa íntima de cada benzedeira com Deus, com o que ela acredita”, explica. Estar aberta a qualquer e toda crença ou religião, inclusive, é uma característica delas. “Se perguntar, ela vai dizer: ‘sou de nenhuma e ao mesmo tempo sou de todas as religiões’. O altar de uma benzedeira tem de tudo: um orixá, um santo, Jesus. Se elas fossem de uma só religião, fecharia as portas para várias pessoas, e elas queriam transbordar amor a todos”, juistifica.

Outra dúvida muito comum apresentada por Jacqueline na obra é sobre o benzimento à distância. Segundo ela, é necessário apenas que seja criada uma lembrança sobre o benzido por meio de uma fotografia, uma peça de roupa ou uma palavra ao telefone. Mas, Naylah aponta que, mais que uma produção para interessados sobre o tema, “Eu Te Benzo” é o registro da história dela com a arte de benzer. “Neste momento emocionalmente frágil, o livro resgata a fé, a coragem, o amor incondicional e as bênçãos de nossos antepassados, que assim como nós também passaram por momentos desafiadores”.





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