Transplante renal incomum evita hemodiálise em paciente



Na cidade de Santarém, no interior paraense, em meio à região Amazônica do Brasil, o Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA) realizou neste mês uma cirurgia inédita na região Oeste do Pará – e incomum no Norte do país: o primeiro transplante renal preemptivo, ou seja, antes do paciente necessitar de hemodiálise. 

Gledsan Maria Caldeira da Trindade, de 42 anos, recebeu o rim do irmão Aglenilson Caldeira da Trindade, 36 anos no dia 14 de junho, após exames que constataram a compatibilidade entre eles.

A paciente já realizava acompanhamento nefrológico no hospital, que pertence ao governo estadual e é gerenciado pela entidade filantrópica Pró-Saúde.

O procedimento é realizado com doador vivo e antes do paciente renal crônico precisar ir para a máquina de hemodiálise, tratamento para filtragem do sangue, realizado em média três vezes por semana, durante quatro horas.

Emanuel Esposito, médico nefrologista e responsável pelo Serviço de Transplante do hospital, explica que o procedimento é incomum pois requer o diagnóstico precoce da doença renal crônica.

“Infelizmente, os pacientes renais costumam chegar nos serviços de referência já em estágio avançado, principalmente em regiões mais remotas como a Amazônica, o que inviabiliza essa opção de tratamento, que é tão eficiente”, destaca ele.

Para o especialista, a conscientização sobre a importância da saúde dos rins e a realização de exames preventivos são essenciais.

De acordo o Ministério da Saúde, de janeiro a novembro de 2021, foram realizados mais de 12 mil transplantes de órgãos no país, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), dos quais 4,8 mil foram de rim.

Ainda segundo o órgão, em números absolutos, o Brasil é o 2º maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. No entanto, não há dados consolidados sobre o volume de transplante renal preemptivo realizado no país.

O médico nefrologista Henrique Moreira Rebello, que integra a equipe de transplante renal do hospital, destaca que acompanhamento prévio ambulatorial da paciente, durante seis anos de tratamento, foi crucial para a efetivação do transplante preemptivo.

“É uma paciente que tinha uma doença renal progressiva e deu tempo de realizarmos todos os exames com antecedência. O preemptivo é um tipo de transplante onde o órgão tem mais chance de aceitação e maior durabilidade no receptor, já que que é substituído antes do paciente apresentar complicações ou estar imunologicamente sensibilizado”, explica o nefrologista.

Para ser concretizado, segundo o médico, “é fundamental um acompanhamento ambulatorial prévio, antes da necessidade de realizar hemodiálise”.

A descoberta da doença

Gledsan descobriu a doença renal crônica em 2016, aos 37 anos, após complicações durante uma gestação, que resultou em um aborto espontâneo. Na época, ela apresentou pressão alta e creatinina alterada, sinais que apontaram a doença. 

A partir de então, ela passou por procedimento cirúrgico e ficou internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em virtude de uma grave eclâmpsia, doença hipertensiva causada pela liberação de proteínas, por parte do feto, na circulação materna, agredindo as paredes dos vasos sanguíneos.

Nos últimos anos, os sintomas renais se agravaram e o médico alertou para a necessidade de iniciar o tratamento, cujas alternativas eram: diálise peritoneal, a hemodiálise e o transplante.

Segundo especialistas, o transplante preemptivo é uma modalidade diferente, já que é realizado antes do paciente ter contato com os outros dois tratamentos. No entanto, necessita da disponibilidade de um doador vivo, onde geralmente a compatibilidade é encontrada com mais facilidade entre membros da família, e sem interferência na fila nacional de transplantes.

Quando saiu o resultado da compatibilidade entre ela e o irmão, Gledsan não escondeu a felicidade. “Nós somos quatro irmãos em casa, somente eu de mulher e três homens. Fizemos os exames, e ele [Aglenilson] deu compatível”, celebra.

A paciente relembra as dificuldades vividas por pacientes renais crônicos, especialmente, os que dependem da máquina de diálise para sobreviver. “Conversamos com muita gente que faz hemodiálise e sei que esse procedimento debilita muito as pessoas. Eu não queria fazer, pedi muito pra Deus e ele realizou”, lembra Gledsan.

O irmão conta que concordou em ser o doador com intuito de possibilitar à irmã uma nova vida. “O sofrimento familiar é muito grande, a gente sofre com ela. Esse transplante está sendo um divisor de águas”, disse Aglenilson Caldeira.

O primeiro transplante preemptivo foi considerado um sucesso pela equipe multiprofissional da unidade, conduzida pelo cirurgião geral e urologista, Alberto Tolentino.

“A experiência de ter operado uma paciente com problema renal, já com os rins não funcionantes e sem ser submetida à hemodiálise, nos mostra que a resposta é muito boa”, afirma o cirurgião.

Ambos os pacientes já receberam alta hospitalar após a cirurgia e apresentam uma evolução positiva do quadro clínico. Gledsan seguirá sendo acompanhada pela equipe de nefrologia do hospital, via atendimento ambulatorial.





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