Carteiros e frentistas; profissionais que não podem aderir ao isolamento – Diário Online


Apesar da campanha que pede que todos fiquem em casa para se proteger do contagio do novo coronavírus, algumas categorias de trabalhadores não têm essa opção. Frentistas e servidores dos Correios, por exemplo, permanecem na ativa. Eles convivem com o constante medo da contaminação pela Covid-19, mas para a maioria tem pesado mesmo a apreensão pela possível perda do emprego.

Pará aumenta para nove o número de casos confirmados do novo Coronavírus

Paciente morre por coronavírus quatro dias após ser liberado por hospital

O presidente do Sindcorreio, no Pará, Israel Rodrigues, ressalta que desde o início de janeiro, ainda no começo da pandemia, a entidade solicitou equipamentos básicos de proteção, como luvas e máscaras e álcool em gel para a Central Nacional dos Correios. “O pedido foi feito não apenas para os carteiros, mas também para os atendentes, já que se trata de uma das únicas categorias que têm contato com todos os lugares do mundo, inclusive da China, por conta das encomendas recebidas”, detalhou.

Os pedidos, no entanto, não foram atendidos, e no último dia 17, quando finalmente chegou um documento autorizando a compra do material, eles estavam em falta. “A Regional do Pará sempre se mostrou sensível aos nossos pedidos, mas o mesmo não aconteceu com a Central Nacional”, criticou.

A partir dessa data também veio a ordem para que os trabalhadores do grupo de risco, aqueles com mais de 60 anos ou com doenças crônicas, fossem afastados gradativamente. “Tivemos uma diminuição no número de trabalhadores, mas muitos continuam nas ruas, e até sexta-feira (20) não havia sido comprado material de insumo para proteger esses trabalhadores, como luvas, máscaras e álcool em gel. Por conta disso, na última segunda-feira (23), havia poucos trabalhadores nas ruas”, destacou.

ABASTECIMENTO

Esta semana, no entanto, parte do material começou a ser adquirido. “A Regional comprou 50 litros de álcool em gel e o sindicato outros 30 litros que começou a ser distribuído e deve, em breve, chegar em 100% das unidades de Belém. No interior também estamos conseguindo comprar agora.”

O presidente do sindicato fez questão de deixar claro que a categoria não pretende parar. “Mas estamos querendo trabalhar com segurança com relação ao vírus, por isso, estamos pedindo inclusive ações de orientação sobre os cuidados que precisamos ter”, ressaltou.

Nas ruas da capital, poucos carteiros foram vistos na manhã de ontem. Alguns estavam com máscaras ou luvas. “Fomos orientados pelos Correios a não falar sobre esse assunto. Mas posso dizer que está faltando material, como álcool em gel”, disse um deles. Outro trabalhador falou que até semana passada não havia qualquer material para prevenção do coronavírus, mas que “esta semana já recebemos máscaras e álcool em gel”.

Os frentistas fazem parte de outra categoria que não está em quarentena, mas a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) determinou que os revendedores deverão funcionar, no mínimo, de segunda-feira a sábado, das 7h às 19h, durante o tempo que durar a pandemia.

Munido de máscaras e luvas, o frentista Maycon Soares, que trabalha há três meses em um posto de combustíveis, diz que gostaria de estar em casa protegido dos riscos do coronavírus. “Não tem como. O meu medo maior é mesmo o posto fechar, porque o movimento caiu muito e agora vamos ter de mudar o horário de funcionamento. Com isso, acho que alguns trabalhadores terão de ser dispensados”,disse o novato, apreensivo.

Sobre o medo de ser contaminado pelo vírus, já que não segue a quarentena, ele afirmou se sentir seguro com os cuidados que vêm sendo tomados pela administração do posto. “Temos máscaras, luvas, água, sabão e álcool em gel, por isso, fico mais tranquilo”,encerrou o trabalhador.

Idosos continuam espalhados pelas ruas

A orientação em tempos de coronavírus é clara: confinamento, especialmente para as pessoas com mais de 60 anos. Mas não é bem o que se vê. O DIÁRIO percorreu algumas ruas de Belém, na manhã de ontem, e percebeu que o número de idosos fora de casa ainda é grande. Eles ainda não entenderam a gravidade da Covid-19 para esse público, que tem mortandade crescente chegando a atingir até 15% conforme o avançar da idade.

Amigos com mais de 60 anos não estão confinados em casa

Mauro Ângelo

 

É o caso de Pedro Paulo Carneiro, 62. Há cerca de três meses, ele sofreu um derrame cerebral. Fala e anda com dificuldades, portanto, está no grupo de risco para coronavírus duplamente (pela idade e pela saúde debilitada), e mesmo assim não se furta de todos os dias se reunir para conversar com um grupo de vizinhos, todos idosos, no bairro da Pedreira. “Estou sempre tomando banho e lavando as mãos”, resumiu ele, com certa dificuldade na fala.

O idoso disse ainda morar com cerca de seis pessoas e que elas reclamam um pouco dele sair de casa, mas nunca o impediram. “Alguns falam, mas eu não acredito muito nessa questão desse vírus. Acho que tem de ter cuidado, mas não é tudo isso que dizem por ai não”, rebateu.

Para ele, não há risco em estar conversando com os amigos na rua. “Não vejo problema nisso, não.”

Além da dificuldade na fala, ele aparentemente também apresenta dificuldade de memória. Quando perguntado sobre seu sobrenome, demorou para responder “porque não lembrava”, justificou.

Dos cerca de seis amigos de Pedro Paulo que estavam na roda de conversa, poucos aceitaram falar com reportagem. Grande parte alegou não entender do assunto. A exceção foi Francisco das Neves, 82. Questionado se não tinha medo de ficar na rua, já que a orientação era para que todos os idosos se mantenham quarentena, ele foi direto: “Medo a gente tem, mas não pode perder a esperança e deixar de fazer as coisas.”

Pedro lembrou que há duas semanas esteve muito gripado, “mas que não teve febre”, frisou, e nesse período se manteve em casa.

Apoiada a uma bengala e com dificuldades para falar por conta da idade avançada – 90 anos -, uma senhora caminhava pela rua, sem nem ao menos imaginar dos riscos que corria. Questionada se conhecia os perigos da Covid-19, ela se resumiu a dizer que “sim”, sem detalhar quais eram. Já sobre o fato de estar na rua, mesmo com a recomendação do Ministério da Saúde para que todos os idosos se mantenham em casa, por conta do risco de contagio, ela disse apenas “estou pela necessidade” e continuou sua caminhada, parando vez por outra para cumprimentar outras pessoas de longe, com acenos.





Fonte da notícia

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*