Amor lésbico em ‘O Chão sob Meus Pés’ detona os clichês de modo sutil – Diário Online



Disponível nos serviços de streaming Now e Vivo Play, o
longa austríaco “O Chão sob Meus Pés” trabalha com a quebra de
estereótipos. Não é um diferencial inédito no cinema, mas vira vantagem ao
fazer essa quebra de maneira sempre sutil, sem grandes alardes.

Valerie Pachner interpreta Lola, uma mulher na casa dos 30
anos que trabalha como consultora financeira. A exemplo do que às vezes
acontece com profissionais do ramo, Lola está sobrecarregada, esgotada e parece
forte candidata à síndrome de burnout.

Além da carreira, ela lida ainda com a irmã Cornelia,
diagnosticada com esquizofrenia e internada num hospital psiquiátrico. E Conny
não é a única mulher da família a enfrentar problemas dessa natureza –a mãe
delas também sofria de transtornos mentais, e as duas cresceram órfãs.

Diante desse histórico, é natural que Lola tenha medo de
seguir pelo mesmo caminho. E tudo indica ser mesmo uma possibilidade quando ela
começa a receber telefonemas de um número anônimo, supostamente feitos por
Conny de dentro da instituição em que se encontra. Lola se questiona se as
ligações são reais ou alucinação.

A diretora Marie Kreutzer, que já havia posto sua
protagonista num universo profissional em grande parte masculino sem precisar
eliminar sua feminilidade, quebra, então, as expectativas mais uma vez. O foco
agora é a progressão da tensão na trama.

Assim, o que poderia se transformar num terror barato, se
mostra uma armadilha habilmente construída só para confundir –e obviamente
manter cativo– o espectador. A cena em que o elevador de Lola desce ao subsolo
é um resumo dessa opção de Kreutzer, porque insinua uma condução que acaba
nunca acontecendo.

Lola mantém um relacionamento com sua chefe Elise, vivida
por Mavie Hörbiger. Quando, na metade do drama, ela descobre os problemas que
Lola enfrenta além do escritório, não é só o namoro que estremece. A
performance e a reputação da jovem também estarão em risco.

Pachner conduz com segurança sua personagem, mantendo
constantemente uma expressão de angústia sem exageros. Sua construção desenha
com elegância uma mulher que não relaxa nunca e que até na hora de fazer
exercícios físicos se demonstra tensa.

A intimidade e o sexo do filme também fogem do estereótipo
–e é só no amor junto com Elise que Lola encontra algum tipo de calma. Em cenas
realísticas, porém sem qualquer fetiche da cama lésbica, Kreutzer marca mais um
gol para o filme.

No entanto, quando Lola entrega enfim um projeto no qual vem
trabalhando desde o início da trama, a fita acelera desproporcionalmente em
relação ao resto do roteiro. A solução de alguns conflitos se dá de maneira
mágica e às vezes até sem muita clareza.

O que se salva sem arranhões do início ao fim é, por sorte,
a fuga de Lola de um destino talvez traçado geneticamente. A loucura sempre
fascinou e assustou as artes, não só no cinema. A escritora Hilda Hilst, por
exemplo, dizia que sempre teve medo de enlouquecer, a exemplo do que aconteceu
com seu pai.

“Essa coisa surpreendente dos loucos, essa desordem,
tudo que eu queria era ordenar aquilo, ordenar aquela desordem”, declarou
Hilst em uma célebre entrevista, a respeito de sua infância. A fictícia Lola,
por sua vez, não desiste de tentar organizar e esquadrinhar sua própria trama.
Vale assistir para saber se ela consegue.

O CHÃO SOB MEUS PÉS

Onde: Now e Vivo Play

Elenco: Valerie Pachner, Pia Hierzegger, Mavie Hörbiger

Produção:
Áustria, 2019

Direção:
Marie Kreutzer

Avaliação:
Bom





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